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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix,
1997.l - A CONDIÇÃO COLONIAL
Os primeiros escritos da nossa vida documentam precisamente a instauração
do processo de colonização (ocupação e exploração) que, nos primeiros
séculos, formou verdadeiras ilhas sociais (Bahia, Pernambuco, Minas, Rio de
Janeiro e São Paulo), dando à Colônia a fisionomia de um arquipélago cultural.
Esses escritos são informações que viajantes e missionários europeus
colheram sobre a natureza e o homem brasileiro. Enquanto informação, não
pertencem à categoria do literário, mas à pura crônica histórica e, por isso, há
quem os omita por escrúpulo estético (José Veríssimo, por exemplo, na sua
História da Literatura Brasileira). No entanto, essa literatura nos interessa como
reflexo da visão de mundo e da linguagem que nos legaram os primeiros
observadores do País. É graças a essas tomadas diretas da paisagem, do
índio e dos grupos sociais nascentes, que captamos as condições primitivas de
uma cultura que só mais tarde poderia contar com o fenômeno da palavra arte.
O valor literário dos documentos da pré-história de nossas letras se amplia
quando constatamos que, por mais de uma vez, a intelectualidade brasileira,
reagindo contra certos processos agudos de europeização, buscou nas raízes
da terra e do nativo imagens para se afirmar em face do estrangeiro. Os
cronistas voltaram a ser lidos, tanto por um José de Alencar romântico e
saudosista como por um Mário ou um Oswald de Andrade modernistas. Daí
reconhecermos, além do valor histórico, a importância literária dos primeiros
escritos.
A Carta de Caminha
O que, para a nossa história, significou uma autêntica certidão de nascimento,
a Carta de Caminha a D. Manuel, dando notícia da terra achada, insere-se em
um gênero copiosamente representado durante o século XV em Portugal e
Espanha: a literatura de viagens. Espírito observador, ingenuidade (no sentido
de um realismo sem pregas) e uma transparente ideologia mercantilista
batizada pelo zelo missionário de uma cristandade ainda medieval: eis os
caracteres que saltam à primeira leitura da Carta e dão sua medida como
documento histórico.
GândavoQuanto a Pero de Magalhães Gândavo, português, de origem flamenga,
professor de Humanidades e amigo de Camões, devem-se-lhe os primeiros
informes sistemáticos sobre o Brasil. A sua estada aqui parece ter coincidido
com o governo Mem de Sá. O Tratado foi redigido por volta de 1570, mas não
se publicou em vida do autor, vindo à luz em 1826, por obra da Academia Real
das Ciências de História de Portugal. Humanista, católico, interessado no
proveito do Reino, lamenta que ao nome de Santa Cruz tenha o "vulgo mal
considerado" preferido o de Brasil, "depois que o pau da tinta começou a vir a
estes Reinos ao qual chamaram brasil por ser vermelho, e ter semelhança de
brasa". Sua atitude íntima consiste em louvar a terra enquanto ocasião de
glória para a metrópole. O nativismo, aqui como em outros cronistas, situa-se
no nível descritivo e não tem qualquer conotação subjetiva ou polêmica.