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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

BLOCH, Marc. Apologia da História ou ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2002.

Obs.: Esfe livro trata de metodologia da História. Foi o último de Marc Bloch e
encontra-se inacabado. A primeira edição é de 1949.
Nascido em 1886, foi educado no seio de uma família judia e dreyfusista, Bloch
frequentou a École Normale até 1908. Entrou em contato com a existência da ideia
definidora de diferentes momentos civilizatórios de Bruhl e teve maior influência de
Durkheim. Optou pela História medieval e especializou-se na ïle-de-France, sobre a
qual publicou, em 1913, seu primeiro estudo em que a noção de problema surgia
expressa no questionamento do conceito de região, alegando que esta variava em
função da questão que se tinha em mente. Foi nomeado mestre de conferência em
dezembro de 1919 e professeur na Universidade de Estrasburgo, em 1921. Nos anos
após a Primeira Guerra, Estrasburgo, recém-desanexada da Alemanha, representava
um ambiente renovado e aberto ao intercâmbio entre disciplinas e ideias. Após ter
lutado na Primeira Guerra, retorna em 1914, ferido. Nesse período, escreveu suas
memórias esboçadas, que seriam mais tarde retomadas e transformadas no livro A
estranha derrota. Ele usa a experiência no front para pensar uma história da psicologia
coletiva. É nesse contexto intelectual que conhece Halbwachs, cujo estudo sobre a
estrutura da memória social o influenciou, e também Lefèbre e Febvre. Em 1924,
publica Os reis taumaturgos, cujo tema adentrava na psicologia religiosa e na seara
das ilusões coletivas. Em 1929, funda com Febvre a Escola dos Annales, novo modelo de historiografia. Em 1931, publica um livro sobre a história rural francesa, aplicando
seu método regressivo. Em 1939, é a vez de A sociedade feudal, história europeia de
900 a 1300. Na Segunda Guerra Mundial, mesmo com 53 anos, alista-se. Diante da
derrota francesa, ele volta e, em 1943, entra para a Resistência do grupo de Lyon. Em
1944, é preso e então saem A estranha derrota e A apologia da história ou o ofício do
historiador. Torturado pela Gestapo, foi fuzilado em 16 de julho de 1944 em Saint
Didier de Formans, perto de Lyon. Bloch, um ser individual e coletivo, foi uma das
vítimas de Klaus Barbie.
“Para que serve a História?” - pergunta seu filho. Ele responde neste livro. O problema
colocado é o da "legitimidade da História", expressão que mostra que, para ele, o
problema epistemológico da História é tanto intelectual e científico quanto cívico e
moral. O problema da utilidade da História, no sentido pragmático da palavra útil, não
se confunde com o de sua legitimidade intelectual. A História é uma ciência em
marcha e não ultrapassou alguns dos problemas essenciais do seu método. Para
Bloch, é importante utilizar a interdisciplinaridade sem, no entanto, causar confusão
entre as disciplinas. História é uma palavra antiquíssima e, desde que surgiu, já
mudou muito de conteúdo. Cabe ao historiador saber como e quais temas escolher e
como tratá-los. A Ciência é a história dos homens no tempo (o tempo da história
escapa à uniformidade, oscila entre a longa duração e o momento, colocando como
mediadora a "tomada de consciência"). Esse tempo é perpétua mudança. Em que
medida devemos considerar o conhecimento do mais antigo como necessário ou
supérfluo para a compreensão do mais recente? A obsessão das origens teve seu
momento no pensamento histórico. Também no estudo religioso, parecia fornecer um
critério próprio do valor do Cristianismo, que é essencialmente uma religião histórica.
Talvez a mania de origem seja um disfarce da mania de julgamento; não se deve
confundir uma filiação com uma explicação. Nunca se explica plenamente um
fenômenofenômeno fora do estudo do seu momento. Mas o que é, com efeito, o
presente? Um instante que mal nasce, morre. O presente e o passado se
interpenetram a tal ponto, que seus elos, quanto à prática do ofício de historiador, são
de sentido duplo. Para compreender o presente, é necessário compreender o passado
e vice-versa. Para interpretar os raros documentos e formular cor-retamente os
problemas, observe e análise a paisagem de hoje. É a teoria da regressão. É a
necessidade de unir o estudo dos vivos e dos mortos. Uma ciência se define por seu
objeto e também por seu método. Colocamos, então, o problema da investigação
histórica. O historiador, por definição, está na impossibilidade de ele próprio constatar
os fatos que estuda. Das eras do passado, só poderíamos falar segundo testemunhos,
um conhecimento indireto. Será que essas afirmações precisam ser consideradas tão
ortodoxamente? O que resta da observação direta, pretenso privilégio do presente? O
explorador da atualidade sonda a opinião pública, faz perguntas; mas o que fornecem
elas senão a imagem que as próprias pessoas formam do que acreditam pensar ou
aquela que pretendem apresentar de seus pensamentos? O indivíduo nunca possui a
consciência imediata senão de seus próprios estados mentais. O investigador do
presente tem o mesmo problema do que o do passado. Mas será que a observação do
passado é certamente sempre indireta a esse ponto? Ele cita um exemplo de
observação histórica do passado, em que o pesquisador sente direta e indiretamente seu objeto, pois ele, através da Arqueologia, pôde analisar cerâmicas cheias de
esqueleto de crianças na Síria. Mas ele não poderia analisar a história apenas
pautando-se desse contato direto e imediato com o passado. Seria necessário se
remeter aos testemunhos da época, caso existam, ou proceder por analogia, com a
ajuda de outros testemunhos. O conhecimento de todos os fatos humanos no passado
e da maior parte deles no presente, deve ser um conhecimento através de vestígios.
Quando os fenômenos estudados pertencem ao presente ou ao passado, o
observador pode usar os relatos das testemunhas. A diferença entre o remoto e o
presente, na investigação, é apenas de grau, não atinge o fundo dos métodos. O
passado é um dado que nada mais modificará, mas o conhecimento deste é uma
coisa em progresso, que se transforma e se aperfeiçoa. Os relatos destinados à
informação dos leitores são os únicos a fornecer um enquadramento cronológico
razoavelmente seguido. Mas foi nas testemunhas à revelia que a investigação
histórica foi levada a depositar cada vez mais sua confiança. A partir do momento em
que não nos resignamos mais a registrar simplesmente as palavras de nossas
testemunhas e tencionamos fazê-las falar a contragosto, impõe-se um questionário,
primeira necessidade de qualquer pesquisa bem conduzida. Toda investigação supõe
que a busca tenha uma direção, mas é necessário que a escolha seja flexível,
suscetível de agregar uma multiplicidade de novos tópicos. A diversidade dos
testemunhos históricos é quase infinita, e é indispensável que o historiador possua ao
menos um verniz de todas as principais técnicas de seu ofício ou opte por uma aliança
de técnicas praticadas por eruditos diferentes, mas voltadas para um tema único.
Método de trabalho por equipes. Reunir os documentos é uma das tarefas mais
árduas do historiador; mas eles não surgem do nada, sua presença ou ausência deriva
de causas humanas que não escapam à análise. É necessário que o autor explique
aos leitores como ele sabe aquilo que está dizendo.
A falta de organização racional das memórias da sociedade é um problema frequente
entre os historiadores. Os responsáveis por essa ignorância e esquecimento são: a
negligência, que extravia os documentos e a paixão pelo sigilo (diplomático, de
negócios, familiar), que esconde ou destrói. Todos sabem que a palavra das
testemunhas, dos relatos e dos vestígios materiais nem sempre são verídicas. Mas
também não adianta ser cético. É preciso levar em consideração o estado de alma da
época e suas diferenças através dos tempos e compreender a razão das informações
falsas. Em 1681, ano da publicação do De ré diplomática, a crítica de documentos foi
definitivamente fundada, momento decisivo na história do método crítico. Na busca da
mentira e do erro, a impostura assume duas formas: o embuste sobre o autor e a data
- falsificação no sentido jurídico do termo - e o embuste sobre o conteúdo. Ex. César,
em seus Comentários, deformou muito, omitiu muito. Mas, excepcionalmente, uma
falsificação pode dizer a verdade. A crítica é levada a buscar, por trás da impostura, o
impostor; ou seja, o homem. A mentira pode vir de um "ato gratuito" (complexo de
vaidade e recalcamento), pode vir por interesse e há a soturna manipulação -
interpolações em documentos autênticos; na narração, acréscimos sobre um fundo
toscamente verídico, detalhes inventados. (Interpola-se geralmente por interesse.
Acrescenta-se, com frequência, para enfeitar). Mas existe também a possibilidade de a
testemunha enganar-se com toda boa fé. Estamos diante da psicologia do
testemunho. É necessário levar em consideração não só o indivíduo em si, mas a interpretação que o indivíduo faz dos fatos, que é influenciada pela sociedade e por
sua época.
O historiador não estuda o presente com esperança de nele descobrir a exata
reprodução do passado; busca os meios de melhor compreender, de melhor senti-lo. A
crítica do testemunho, que trabalha realidades psíquicas, permanecerá uma arte de
sensibilidade e razão, tendo sua própria dialética. Na base de quase toda crítica
inscreve-se um trabalho de comparação que nada tem de automático, ressalta tanto
semelhanças como diferenças. Assim a crítica move-se entre dois extremos: a
similitude que justifica e a que desacredita. Isso porque o acaso dos encontros tem
seus limites. Resta, ao se impor a hipótese de cópia, fixar as direções de influência.
Os documentos beberam de uma fonte comum? A supor que um seja original, em qual
reconhecer esse título? Às vezes a resposta será fornecida por critérios externos: as
datas relativas ou, na falta desse apoio, a análise psicológica. Para uma melhor
análise histórica, julgar ou compreender? Compreender nada tem de atitude passiva.
Citando Montaigne, Bloch diz que, a partir do momento em que o julgamento pende
para um lado, não se pode evitar de distorcer a narração desse viés.
Compreenderemos um fato humano sempre melhor, se já possuirmos a compreensão
de outros fatos do mesmo género. Os fenômenos humanos orientam-se, antes de
tudo, por cadeias de fenômenos semelhantes. Dá-se a ideia das imbricações dos
componentes das sociedades humanas mergulhadas na História, em cuja direção
todos os elementos da vida do povo, todas as forças de sua existência vem confluir.
Bloch chama esse complexo, de civilização. A História recebe seu vocabulário da
própria matéria de seu estudo. Os documentos tendem a impor a sua nomenclatura; o
historiador, se os escuta, escreve sob o ditado de uma época cada vez diferente, mas
pensa segundo as categorias da sua própria época, portanto, com as palavras desta.
Uma nomenclatura imposta ao passado acarretará sempre uma deformação. No
estabelecimento das relações de causa e efeito (condenação da tentativa de redução
do problema das causas em História a um problema de motivos e a recusa da banal
psicologia), o emprego da relação causal, como ferramenta de conhecimento histórico,
exige uma tomada de consciência crítica. O problema das causas, em História, não é
um problema de motivos As causas, em História, como em outros domínios, não são
postuladas, são buscadas.

Síntese elaborada por Virgínia Spósito de Souza